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CNI defende segurança hídrica como eixo para adaptação à mudança do clima

Por Agência de Notícias da Indústria - Publicado 09 de outubro de 2026

Estudo sobre dessalinização, apresentado em congresso em São Paulo, analisa custos, impactos ambientais e oportunidades de financiamento para ampliar o uso da tecnologia no país.


Foto: Shutterstock

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresentou o estudo Segurança Hídrica Industrial: O Papel da Dessalinização no Brasil durante o Congresso ALADYR Brasil 2026, realizado pela Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reúso de Água, em São Paulo. A publicação traça um panorama sobre a maturidade tecnológica, custos de investimento, impactos ambientais e oportunidades de financiamento para assegurar o suprimento hídrico da indústria brasileira. 

A dessalinização consiste na remoção do sal e de outros minerais da água do mar ou da água salobra, o que viabiliza o uso para consumo humano e atividades produtivas. O método de dessalinização mais usado atualmente é a Osmose Reversa (OR). Nesse processo, a água passa por membranas semipermeáveis sob pressão, capazes de reter sais e impurezas dissolvidos.  

A CNI acredita que a dessalinização pode reduzir riscos operacionais, assegurar a continuidade produtiva e fortalecer a sustentabilidade do setor produtivo.  

"Segurança hídrica, hoje, é competitividade. Para a indústria, a água deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a ser uma variável estratégica, que define onde se investe, como se produz e se a operação resiste a uma crise. Reúso e dessalinização são respostas concretas de adaptação à mudança do clima", afirmou o diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto de Oliveira Muniz.  

A realidade da escassez hídrica na América Latina  

O estudo foi apresentado aos especialistas latino-americanos pelo gerente de Recursos Naturais da CNI, Mário Cardoso, no painel “Mudanças climáticas e segurança hídrica: desafios para a economia latino-americana”. O debate contou com a participação do assessor da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Tibério Pinheiro e contou com a moderação do diretor da Aladyr, Eduardo Pedroza.  

Cardoso apresentou dados sobre o impacto da mudança do clima na economia. Segundo o Atlas Digital de Desastres no Brasil, eventos climáticos atingiram 83% dos municípios brasileiros entre 2014 e 2023, afetaram 177 milhões de pessoas e causaram prejuízos de R$ 421 bilhões. Um estudo do Ministério do Planejamento e Orçamento, feito no âmbito da Estratégia Brasil 2050, estima que a inação climática pode custar até R$ 17,1 trilhões ao PIB até 2050 e eliminar 4,4 milhões de empregos. 

Na América Latina, cerca de 150 milhões de pessoas vivem em situação de escassez hídrica. No Brasil, a água é abundante no agregado, mas mal distribuída: 81% da água superficial está na Amazônia, enquanto o semiárido nordestino enfrenta escassez crônica. A indústria demandou cerca de 175 m³/s de água em 2025, segundo a ANA. 

Maturidade Tecnológica e Viabilidade Econômica 

O estudo aponta que a tecnologia de Osmose Reversa (OR) passou por um salto de eficiência operacional nas últimas décadas. O consumo energético específico, que no início alcançava até 20 kWh/m³, caiu para a faixa de 2,0 a 4,0 kWh/m³ nas instalações modernas de grande porte. 

Embora a energia elétrica ainda represente entre 40% e 60% dos custos operacionais (OPEX) de uma usina de dessalinização, os benchmarks para o setor industrial no Brasil já se situam entre US$ 0,5 e US$ 0,8 por m³ de água produzida. A média global de investimento em capital (CAPEX) para projetos em larga escala gira em torno de US$ 900 por m³/dia de capacidade instalada. 

A urgência por alternativas hídricas acompanha a distribuição demográfica e econômica do país: 111,27 milhões de pessoas (54,8% da população brasileira) vivem a até 150 km da costa, onde também se concentram grandes polos fabris. Segundo dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a demanda de água exclusiva do setor industrial é de 191 m³/s. 

Financiamento Disponível via Fundo Clima (BNDES) 

Para impulsionar novos projetos, o estudo da CNI mostra que existem linhas de crédito disponíveis por meio da linha Fundo Clima – Indústria Verde, operada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Para a CNI, o próximo passo é dar mais segurança jurídica aos investimentos. Isso inclui clareza sobre licenciamento ambiental para descarte de salmoura, por exemplo, e tributação de equipamentos e insumos, para que os projetos ganhem escala. 

Casos Práticos no Setor Industrial e Abastecimento 

O levantamento também reúne experiências brasileiras consolidadas que comprovam a viabilidade técnica e ambiental da tecnologia: 

  • ArcelorMittal Tubarão (ES): Maior usina de dessalinização de água do mar do Brasil, recebeu investimento de R$ 50 milhões e possui capacidade inicial de 500 m³/h (suficiente para abastecer 80 mil pessoas). A planta conta com sistema de recuperação de energia de alta pressão que reduz em 50% o consumo elétrico e realiza o descarte de salmoura diluído no canal de água do mar da própria usina (800 m³/h diluídos em 48.000 m³/h). 
  • Fortaleza (CE): Parceria Público-Privada (PPP) de 30 anos com a Cagece e o Consórcio Águas de Fortaleza, envolvendo R$ 3,1 bilhões em valor total e R$ 526 milhões em investimentos diretos para construir uma usina com capacidade de 1 m³/s (31,5 milhões de m³/ano). 
  • Fernando de Noronha (PE): O investimento de R$ 22 milhões da Compesa na usina do arquipélago gerou um ganho de 85,7% na receita da concessionária e acabou com o racionamento hídrico na ilha. 
  • Programa Água Doce (PAD): Focado no semiárido, atende mais de 200 mil pessoas em comunidades rurais. Em pregões recentes da Codevasf, foram contratados sistemas comunitários de 400 L/h com custo unitário de instalação entre R$ 423 mil e R$ 445 mil. 
  • Ilhabela (SP): Projeto da Sabesp com capacidade para 30 L/s, que aumentará em 22% a oferta de água potável para cerca de 7.000 famílias, com previsão de início de operação em 2026. 
  • CPFL (RN): Sistema fotovoltaico integrado à dessalinização que leva água potável a mais de 800 famílias no semiárido potiguar. 

Evolução da Gestão Hídrica 

A publicação integra uma estratégia contínua da CNI iniciada em 2017. Em parceria com federações industriais e o Centro Internacional de Referência em Reúso de Água da USP (Cirra/USP), a entidade já produziu 10 estudos sobre reuso de efluentes. As projeções indicam que o Brasil pode multiplicar sua capacidade de reuso industrial em até 13 vezes, onde um investimento estimado de R$ 1,89 bilhão traria um retorno econômico direto de R$ 5,9 bilhões para o setor.  

A trajetória resultou em um manual metodológico para avaliar a viabilidade do reúso industrial em toda a América do Sul, lançado recentemente pela CNI. O painel também apresentou o Guia da Indústria para Adaptação à Mudança do Clima, publicação da CNI deste ano com diagnóstico, metodologia e ações práticas para o setor. 

Baixe o guia.

Para o diretor da Aladyr, Eduardo Pedroza, a parceria com a CNI fortalece a agenda regional. "O Brasil reúne condições únicas para liderar a segurança hídrica na América Latina: um litoral extenso, abundância de energia renovável e casos de sucesso já em operação. O estudo da CNI é uma contribuição importante para que empresas, governos e investidores vejam a dessalinização e o reuso como parte do planejamento hídrico, e não apenas como resposta a crises", disse.  

Confira o estudo na íntegra. 

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