
A restauração da vegetação nativa pode deixar de ser vista como um custo e se consolidar como um ativo econômico capaz de criar renda, inovação, investimento e competitividade. Esse foi o centro dos debates no workshop Restauração em Escala: Integração Federativa para a Recuperação da Vegetação Nativa, realizado na Confederação Nacional da Indústria (CNI), nesta quarta-feira (11). O evento contou com a presença da ministra do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Marina Silva.
Para o diretor da CNI, Roberto Muniz, a restauração florestal precisa ser encarada como parte da estratégia de desenvolvimento do país. “Esse é um espaço estratégico para discutir como a restauração florestal pode deixar de ser custo e se consolidar como ativo econômico capaz de gerar renda, inovação, investimento e competitividade”, afirmou.
Ele ressaltou que o Brasil reúne condições únicas para liderar globalmente essa agenda, combinando território, biodiversidade, base institucional e capacidade produtiva. Nesse contexto, a meta de restaurar 12 milhões de hectares prevista no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) representa, na avaliação da indústria, uma oportunidade estratégica para o desenvolvimento econômico aliado à conservação ambiental.
Muniz também destacou que a restauração em larga escala exige cooperação entre diferentes níveis de governo e instituições. Segundo ele, a indústria vê nesse processo oportunidades ligadas à inovação e ao desenvolvimento tecnológico em áreas como biotecnologia, pesquisa aplicada, bioinssumos, química verde, monitoramento ambiental, sensoriamento remoto e produtos da biodiversidade, inclusive nos setores farmacêutico e de cosméticos.
Integração entre economia e meio ambiente
Durante a abertura, a ministra Marina Silva destacou que a agenda de restauração conecta desenvolvimento econômico e proteção ambiental.
“Meio ambiente e desenvolvimento fazem parte da mesma equação”, afirmou.
A ministra ressaltou que políticas públicas bem estruturadas podem transformar a dinâmica econômica de regiões historicamente associadas ao desmatamento. “Quando temos políticas públicas bem desenhadas e com continuidade, conseguimos resultados como transformar o antigo arco do desmatamento no arco da restauração”, disse.
De acordo com ela, municípios que reduzem o desmatamento precisam de instrumentos e incentivos para restaurar áreas degradadas e manter a floresta em pé. Marina também apontou que o enfrentamento da ilegalidade é condição para o avanço da agenda ambiental. “Nada disso é possível sem combater o ilegal”, disse, ao defender que o desenvolvimento sustentável deve integrar dimensões econômicas, sociais e ambientais.

Novos projetos para restauração na Amazônia
Durante o evento, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o MMA anunciaram o resultado do quarto ciclo de editais do programa Restaura Amazônia.
Foram selecionados 11 projetos que somam R$ 69,5 milhões em investimentos voltados à restauração ecológica e ao fortalecimento da cadeia produtiva da recuperação florestal na Amazônia Legal. As iniciativas têm previsão de restaurar 2.877 hectares em Unidades de Conservação prioritárias nos estados do Acre, Rondônia, Tocantins, Mato Grosso, Pará e Maranhão.
A iniciativa integra a estratégia do governo brasileiro para ampliar a escala da restauração e fortalecer a implementação do Planaveg. Na avaliação do secretário-executivo do MMA, João Paulo Capobianco, a restauração florestal se tornou um compromisso estratégico do país no cenário internacional.
“O Brasil assumiu, no âmbito do Acordo de Paris e da sua primeira Contribuição Nacionalmente Determinada, o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares até 2030. Essa agenda deixou de ser apenas uma política ambiental e passou a perpassar diversos programas de governo”, afirmou.
Cadeias produtivas e bioeconomia
A secretária de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do MMA, Rita Mesquita, destacou que as iniciativas de restauração precisam estar conectadas à construção de cadeias produtivas sustentáveis.
“As escolhas que fazemos agora terão repercussão em diversas cadeias produtivas. A restauração não é um fim em si mesma; ela é uma etapa, um meio para impulsionar outras cadeias e fortalecer a conservação”, afirmou.
Programação continua até sexta-feira
O workshop continuará com programação técnica nos dias 12 e 13 de março, reunindo representantes do governo federal, governos estaduais e municipais, setor produtivo, instituições financeiras e organizações da sociedade civil.
Os debates incluem temas como monitoramento da vegetação, fortalecimento das cadeias de sementes e mudas, mecanismos financeiros para viabilizar a restauração e estratégias de governança territorial voltadas à recuperação da vegetação nativa no país.
