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Congresso de Inovação: país precisa investir em inovação e escalar soluções, avalia Embrapii

Por Agência de Notícias CNI - Publicado 09 de março de 2026

Diretor-presidente da Embrapii, Alvaro Prata, fala dos gargalos do país e das áreas que mais receberam apoio técnico e financeiro; instituição é patrocinadora do 11º Congresso de Inovação


Agroindústria, saúde, manufatura avançada, TI e energia lideram em contratações de projetos com a Embrapii. Foto: Diego Bresani/Embrapii

Conhecimento científico, recursos não reembolsáveis e um modelo mais ágil, flexível e menos burocrático para apoiar projetos de inovação na indústria. A Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) surgiu para conectar empresas e Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) públicas e privadas e oferecer apoio técnico e financeiro para impulsionar a inovação.

No modelo de cofinanciamento não tem edital, a empresa apresenta seu problema a uma das 90 unidades de pesquisa credenciadas e a Embrapii investe até 1/3 do valor do projeto. 

A Embrapii é uma das patrocinadoras do 11º Congresso de Inovação da Indústria, que acontece nos dias 25 e 26 de março no WTC em São Paulo. O evento vai debater e apresentar desafios, soluções e oportunidades para as indústrias brasileiras inovarem.

Em entrevista à Agência de Notícias da Indústria, o diretor-presidente da Embrapii, Alvaro Prata, antecipou alguns dos principais gargalos estruturais do país: o baixo investimento privado em pesquisa e desenvolvimento (P&D) em comparação com países líderes em inovação, a integração academia-indústria, o ambiente regulatório, a formação de talentos, o intercâmbio de conhecimento e a escalabilidade dos projetos. Ele também falou sobre áreas estratégicas que têm recebido o maior volume de recursos e resultados esperados em curto, médio e longo prazo.  

AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA INDÚSTRIA - Como avalia a disponibilidade de recursos para inovação atualmente? Houve uma mudança nos investimentos nos últimos anos? 

ALVARO PRATA - O cenário atual para recursos voltados à inovação é promissor e estratégico. Nos últimos anos, houve uma mudança significativa na forma como o Brasil encara o investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), especialmente com o fortalecimento de políticas públicas e parcerias entre governo, empresas e instituições científicas.

A Embrapii tem observado uma ampliação dos mecanismos de fomento, sobretudo a partir de projetos alinhados à Nova Indústria Brasil. Esse movimento demonstra, a título de exemplo, um compromisso renovado com a transformação digital, a transição energética e o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e da agroindústria. A Embrapii tem expandido sua rede de unidades e competências tecnológicas, permitindo que empresas de todos os portes - especialmente as pequenas e médias - tenham acesso facilitado à inovação de base científica e tecnológica. 

AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA INDÚSTRIA - Quais são os critérios da EMBRAPII para seleção dos projetos? 

ALVARO PRATA - Os projetos apoiados pela Embrapii são demandados diretamente pela indústria através do contato com as Unidades Embrapii. A Embrapii segue um modelo bastante diferenciado na contratação e execução dos projetos, voltado para dar agilidade e reduzir a burocracia. Levamos em conta a demanda do setor produtivo.

O projeto precisa nascer de uma necessidade real da indústria, garantindo aplicação prática e impacto direto. Outro ponto de atenção é o alinhamento tecnológico. O projeto deve estar dentro das áreas de competência da Unidade Embrapii credenciada que foi demandada. Compartilhamos o risco com as empresas que querem inovar.

A avaliação dos projetos passa também pela viabilidade técnica e econômica, com análise da capacidade de execução, cronograma e potencial de resultados. O projeto deve apresentar caráter inovador e potencial de gerar diferenciais competitivos para a empresa. Finalmente, temos extrema atenção a metas e indicadores. Cada projeto é acompanhado por métricas de desempenho e entregas definidas em contrato. 

AGÊNCIA DE NOTÍCIAS - Uma queixa comum dos empresários é a burocracia para acessar recursos. Como facilitar o acesso e, ao mesmo tempo, garantir o rigor na seleção para que o investimento seja realizado nos projetos com mais potencial? 

ALVARO PRATA - Sem dúvida, a burocracia é uma das principais queixas dos empresários quando se trata de acessar recursos para inovação. Nosso modelo foi justamente desenhado para conciliar agilidade com rigor técnico. Sem editais tradicionais, as Unidades Embrapii têm autonomia para negociar diretamente com as empresas, eliminando longas fases burocráticas.

Desta forma, os projetos podem ser iniciados em poucas semanas, o que é incomum em outros mecanismos de fomento. A Embrapii aposta também na flexibilidade, pois atendemos diferentes portes de empresas, inclusive startups e MPMEs, que conseguem acessar os recursos com processos simplificados. Nosso modelo de cofinanciamento compartilha riscos, mas exige contrapartida da empresa e da Unidade, o que assegura comprometimento real.

As unidades, que conhecem profundamente suas áreas tecnológicas, têm autonomia para negociar com as empresas enquanto a Embrapii assegura padrões de qualidade e governança. Assim, conseguimos reduzir a burocracia sem abrir mão do rigor, direcionando os investimentos para projetos com maior potencial de impacto. 

AGÊNCIA DE NOTÍCIAS - No que diz respeito à inovação industrial, como avalia o Brasil em relação aos outros países? Quais são nossos pontos fortes e fracos? 

ALVARO PRATA - O Brasil apresenta um quadro desafiador, mas com pontos fortes relevantes quando comparado a outros países em inovação industrial. Temos uma base científica sólida, com universidades e centros de pesquisa de excelência e produção científica reconhecida internacionalmente.

Contamos com grande diversidade industrial, com setores pujantes como agronegócio, energia renovável, biotecnologia e saúde, que oferecem oportunidades únicas de inovação. A nossa capacidade de adaptação é um diferencial importante. As empresas brasileiras têm demonstrado resiliência e criatividade em ambientes de crise, o que favorece soluções inovadoras.  

O baixo investimento privado é um ponto de atenção. Comparado a países líderes, o aporte das empresas brasileiras em pesquisa ainda é limitado. Nossa escala reduzida também é um ponto fraco, impedindo que muitas inovações atinjam impacto nacional ou internacional. Acredito que o país tenha que ter atenção constante também à formação de talentos técnicos.

Ainda há lacunas na capacitação em áreas estratégicas como inteligência artificial, manufatura avançada e transição energética. Em resumo, o Brasil tem competências científicas e setores estratégicos fortes, mas precisa avançar em investimento privado, escalabilidade e internacionalização para se aproximar dos países líderes em inovação industrial, como Coreia do Sul, Alemanha e Estados Unidos.  

AGÊNCIA DE NOTÍCIAS - Quais áreas estão sendo mais beneficiadas pelos projetos Embrapii? 

ALVARO PRATA - Os projetos apoiados pela Embrapii têm beneficiado uma ampla gama de áreas estratégicas da inovação industrial no Brasil. A diversidade reflete tanto a demanda empresarial quanto as competências tecnológicas das unidades credenciadas. O agronegócio lidera em contratações, seguido da área de saúde, mas temos muita expressão em manufatura avançada, tecnologia da informação, energia e meio ambiente, materiais e química. 

AGÊNCIA DE NOTÍCIAS - Em quais segmentos devemos esperar um desempenho melhor do país em curto, médio e longo prazo, tendo em vista os investimentos que estão sendo realizados?  

ALVARO PRATA - Em curto prazo, de dois a três anos, creio seja o segmento de tecnologia da informação e digitalização, que inclui inteligência artificial, ciência de dados e automação, que já estão em fase de aplicação direta em empresas. Saúde e fármacos, com projetos de desenvolvimento pré-clínico e soluções médicas inovadoras tendem a gerar resultados rápidos. E também o agronegócio, com o desenvolvimento de bioinsumos e tecnologias de precisão que já estão sendo incorporados por produtores, com impacto imediato na produtividade. 

No médio prazo, considerando o período de quatro a sete anos, eu diria que a energia e sustentabilidade, pois a transição energética, otimização de recursos e soluções ambientais começam a ganhar escala. Da mesma forma, a manufatura avançada, com robótica, impressão 3D e novos processos produtivos que se consolidam em setores industriais. Finalmente, apontaria a biotecnologia aplicada, pois os processos biotecnológicos em alimentos, fruticultura e bioeconomia ampliam competitividade. 

Falando em longo prazo, ou seja, entre 8 e 15 anos, podemos apostar nos materiais avançados e química verde, com inovação em biossintéticos, fibras e intensificação de processos químicos e insumos farmacêuticos ativos a partir da nossa biodiversidade. A área de defesa e tecnologias estratégicas também têm grande potencial de desenvolvimento com sistemas embarcados, conectividade e soluções de alta complexidade tecnológica. 

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