
Já pensou em fazer um exame em um estado e conseguir acessar os dados da consulta e os resultados em outro, por meio de um mesmo sistema? Essa é a proposta da interoperabilidade de dados.
O nome é complicado, a dinâmica é simples, mas é preciso entender essa aplicação e como funciona a padronização e o sistema de segurança. E é exatamente isso que um grupo de empresas e suas lideranças farão, na Espanha, entre hoje (13) e sexta-feira (17).
Os representantes institucionais de empresas como Vale e Fundação Zerrenner, da Ambev, entre outras, além de integrantes do Ministério da Saúde (MS), do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) e do Conselho Nacional de Saúde (CNS), participarão de um proograma internacional voltada ao fortalecimento da integração de dados em saúde no Brasil. A agenda inclui a análise do modelo catalão de saúde, referência internacional no tema.
O programa executivo é liderado pelo Movimento Empresarial pela Saúde (MES), iniciativa do Serviço Social da Indústria (SESI) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Mas, vamos entender melhor o que é interoperabilidade de dados?
O foco da proposta é a comunicação entre diferentes bases de dados para compartilhar o histórico do paciente com segurança, ética e eficiência.
A Espanha já está alguns passos à frente nesse tema. A escolha do país para o programa não é por acaso: ela está diretamente ligada ao modelo adotado na Catalunha, considerado referência internacional em interoperabilidade de dados em saúde.
Por lá, esse processo começou a ser estruturado entre 2007 e 2009, com a criação da Història Clínica Compartida de Catalunya (HC3). Com o uso de mecanismos de interoperabilidade, os dados passaram a circular entre os serviços de saúde da comunidade autônoma, que tem cerca de 8 milhões de habitantes. Segundo relatório da EHTEL, com base em dados do CatSalut (Serviço Catalão de Saúde), o sistema hoje conecta toda a rede pública da região, permitindo que as informações do paciente sejam acessadas de forma integrada em diferentes pontos de atendimento.
E o quer isso muda na prática? Isso faz diferença no dia a dia do atendimento. Com a interoperabilidade, o médico pode acessar o histórico completo do paciente, incluindo exames, diagnósticos e atendimentos anteriores, mesmo que tudo tenha sido feito em instituições diferentes. O resultado? Menos repetição de exames, mais segurança e decisões clínicas mais rápidas.
No Brasil, esse movimento começou a ganhar forma em 2020, com a criação da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). A iniciativa já permite, por exemplo, consultar o histórico de vacinação pelo Conecte SUS. Apesar dos avanços, a integração entre sistemas e a conexão entre as redes pública e privada ainda evoluem de forma gradual.
Como será?
A agenda inclui visitas técnicas a centros de excelência, indústrias e instituições acadêmicas, com o propósito de aprofundar o conhecimento sobre soluções que viabilizam a circulação integrada do histórico clínico entre diferentes pontos de atenção à saúde. O objetivo é contribuir para a adaptação de boas práticas ao contexto brasileiro, promovendo, especialmente, o avanço na integração entre os sistemas público e privado de saúde.
Para o superintendente de Saúde do SESI, Emmanuel Lacerda, o programa internacional representa uma oportunidade estratégica para avançar em soluções concretas de integração de dados no país.
“O cenário mudou bastante nos últimos anos. Hoje, o desafio é conseguir conectar e usar essas informações de forma inteligente. Quando isso não acontece, conseguimos muita informação, mas pouca ação. A expectativa é que a experiência em Barcelona ajude a apontar caminhos para transformar esses dados em cuidados mais eficientes e em resultados concretos e seguros para o paciente”, afirma.
Durante a imersão, a delegação busca compreender como modelos mais avançados estruturam, na prática, a integração entre dados, tecnologia e cuidado. O coordenador da delegação do Conselho Nacional do SESI em Barcelona, Warley Soares, afirma que a expectativa ao longo da semana é analisar como esses sistemas operam de forma integrada.
Segundo ele, “a experiência deve contribuir para fortalecer o papel do CN-SESI na construção de uma agenda nacional de saúde digital, articulada com o Departamento Nacional da instituição e os regionais, com foco em trabalhadores e empresas.”
Já a presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Fernanda Magano, destaca que a iniciativa amplia o diálogo entre instituições, especialistas e o controle social em torno de uma agenda estratégica para o país.
“Esta iniciativa tem valor justamente por criar um espaço de escuta, troca e construção entre diferentes atores que atuam na saúde. Em temas tão decisivos como a saúde digital, é fundamental que o debate não fique restrito à dimensão tecnológica, mas incorpore também o compromisso com o interesse público, com a participação social e com a qualidade do cuidado oferecido à população”, conta Magano.
A agenda é articulada em parceria com o Conselho Nacional do SESI (CN-SESI) e com correalização do IEL (Instituto Euvaldo Lodi), com a participação do Ministério da Saúde (MS), do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) e do Conselho Nacional de Saúde (CNS).
