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CNI

Aliança pela eficiência energética

Por Agência CNI de Notícias - Publicado 12 de setembro de 2019

CNI, Abrace e Procel ajudam grandes indústrias a racionalizar energia

Nos próximos meses, 24 indústrias de grande porte devem aderir ao Programa Aliança, uma iniciativa ambiciosa que pretende melhorar a eficiência energética nos processos de produção. Na terceira fase, que se encerra em 2024, serão investidos R$ 20 milhões em ações que visam à redução do consumo de energia e de água por meio de ajustes nos processos de produção. O programa também identifica oportunidades de tratamento e reaproveitamento de efluentes e resíduos e de redução das emissões de gases do efeito estufa.

Criado em 2015, o Programa Aliança é resultado de uma parceria entre a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel) e as indústrias. “O foco é ajudar as grandes indústrias, especialmente aquelas cujos processos são complexos e intensivos no consumo de energia, a enfrentar o desafio da eficiência energética. O uso racional da energia é uma alternativa internacionalmente reconhecida para reduzir os custos e os impactos ambientais”, afirma o especialista em Energia da CNI, Rodrigo Garcia.

O secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia, Reive Barros, destaca que o Programa Aliança integra o conjunto de esforços para o uso racional de energia no país. “O Brasil e o mundo devem investir em eficiência energética porque isso significa combater o desperdício. O uso racional da energia reduz a demanda, permite a postergação de investimentos e reduz os impactos ambientais da geração de energia. Aumenta a competitividade da indústria e da economia”, afirma o secretário. 

Desde 2017 o Programa Aliança foi implementado em 12 plantas industriais de setores como o siderúrgico, o químico, o de cimento e o automobilístico. “Os resultados encontrados até o momento são promissores”, destaca Garcia. 

Segundo ele, o programa identificou projetos capazes de proporcionar uma economia de R$ 161 milhões por ano às empresas. Entre as iniciativas, 65% já foram implementadas.

“A maioria envolve otimização de processos sem a necessidade de troca de equipamentos”, completa Rodrigo Garcia. Com os projetos implementados até agora, as empresas obtiveram uma redução de R$ 87 milhões ao ano nos custos operacionais, mais de dez vezes o valor total investido, de R$ 8,3 milhões. 

O coordenador técnico do Programa Aliança, Paulo Miotto, explica que a iniciativa nasceu de um estudo internacional que identificou as maiores e melhores ações de eficiência energética na indústria. “A partir deste estudo, percebemos que havia um amplo espaço para inciativas de eficiência energética nas grandes indústrias brasileiras”, afirma Miotto. Atualmente, mais da metade das ações recomendadas pelo programa são implementadas nas empresas participantes. “É uma taxa de implementação alta em comparação com outros programas internacionais”, afirma. Isso ocorre porque muitas ações não dependem de grandes investimentos da indústria.

RETORNO EM DOBRO - O uso racional de energia faz parte da rotina da empresa Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Para reforçar as ações de eficiência energética, a empresa aderiu ao Programa Aliança em outubro de 2017. As primeiras ações, identificadas pelo programa na Usina Presidente Vargas, em Volta Redonda (RJ), foram implementadas em 2018 e já proporcionaram ganhos de cerca de R$ 800 mil para a unidade, mais do que o dobro dos R$ 300 mil investidos pela empresa para aderir ao Programa Aliança.

NOVOS PARADIGMAS - Na avaliação de Romildo Brito, que também atua na coordenação técnica, o Programa Aliança quebrou paradigmas ao identificar oportunidades de uso racional da energia nos processos de produção. “Antes, o conceito de eficiência energética era limitado a motores, bombas, iluminação e outras utilizadas da indústria. Ao aplicar a eficiência energética nos processos, o programa traz ainda mais retorno para as empresas”, diz Brito. 

O coordenador de gestão do Programa Aliança, Gustavo Vasconcellos, lembra que as ações são voltadas para grandes indústrias instaladas no Brasil, cujos processos produtivos consomem muita energia. “São cerca de 150 empresas que são responsáveis por 20% do consumo de energia do país”, conta Vasconcellos. Segundo ele, a CNI e as empresas que aderem ao programa dividem os custos e assinam um contrato com papéis e responsabilidades bem definidos.  A CNI oferece metodologia de trabalho, equipe de consultores especializados, softwares e laboratórios, treinamento e acompanhamento da equipe da indústria. Em contrapartida, a empresa se compromete a implementar as ações aprovadas e manter o programa por 24 meses.

CULTURA DE SUSTENTABILIDADE - A indústria química Clariant também está entre as empresas que já contabilizam os benefícios do Programa Aliança. As ações de eficiência energética foram implementadas na unidade da Clariant localizada em Suzano, na região metropolitana de São Paulo.

Além da redução do consumo de energia, foram registrados ganhos de 5% na produtividade de alguns processos na Clariant. O programa também reforçou a cultura da sustentabilidade e do uso eficiente de recursos na indústria. 

É possível desenvolver o uso racional de energia em todos os lugares, diz Jamil Haddad

A indústria é responsável por 33,2% do consumo de energia no Brasil. Portanto, todas as iniciativas de eficiência energética do setor são cruciais para reduzir os custos e elevar a competividade dos produtos brasileiros. O alerta é do coordenador do Centro de Excelência em Eficiência Energética da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), Jamil Haddad. 

Doutor em Energia Elétrica, Haddad destaca que o uso racional nas empresas exige uma série de iniciativasmedidas. Entre elas, essas ações estão a capacitação dos profissionais, a sensibilização dos dirigentes e tomadores de decisão e o compartilhamento e a divulgação de resultados para as demais empresas do setor. 

Nesta entrevista à Agência CNI de Notícias, Jamil Haddad fala da importância da eficiência energética e afirma que é possível desenvolver a “cultura da boa energia” nas residências, no escritório, na indústria, enfim, em todos os lugares. Leia os principais pontos da entrevista: 

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS - Quais os ganhos do uso racional e eficiente da energia?

JAMIL HADDAD - Toda a sociedade ganha com o uso racional e eficiente da energia, seja na eletricidade que transforma energia elétrica em luz ou na energia química associada ao processo de combustão em um motor de um veículo ou em outras formas. Uma vez que reduzimos os desperdícios e utilizamos menos energia em qualquer processo, naturalmente, o custo será menor. 

Ao longo do tempo, as sobras decorrentes dessa economia poderão ser utilizadas em outras atividades ou na compra de outros bens. A natureza também vai agradecer, pois os impactos ambientais serão amenizados ou adiados, pois vamos demandar menos energia das usinas. É possível desenvolver uma “cultura da boa energia” em casa e no trabalho. 

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS -Como o Sr. classifica as iniciativas das empresas, sobretudo das indústrias que são grandes consumidoras de energia, para alcançar a eficiência energética?

JAMIL HADDAD -A energia é um componente importante dos custos na maioria das indústrias. Consequentemente, a eficiência energética é um dos fatores de redução de custos, incremento da competitividade e mitigação dos impactos ambientais causados pela geração de energia. O setor industrial responde por grande parte da energia consumida no mundo. No Brasil, a indústria é responsável por 33,2% do consumo de energia. Por isso, todas as iniciativas da indústria para melhorar a eficiência energética são bem-vindas. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e outros parceiros desenvolvem um importante programa para as empresas denominado Programa Aliança.

Para as empresas atingirem as metas de economia de energia planejadas, é preciso buscar sinergia nas várias ações, atuar na sensibilização dos dirigentes e tomadores de decisão, capacitar os profissionais para atuar de forma eficiente tanto com energia elétrica como com energia térmica e utilização de aplicativos computacionais para dar suporte às análises e às ações. Também é preciso buscar o compartilhamento e a divulgação dos resultados junto às demais empresas do setor para aprimorar os sistemas de gestão energética. 

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS - Como o Sr. avalia as iniciativas do poder público para aumentar a eficiência energética?

JAMIL HADDAD - O Brasil conseguiu, ao longo dos últimos anos, construir uma boa estrutura de ações e programas de eficiência energética, além de alguns instrumentos legais e regulatórios como etiquetagem, a Lei de Eficiência Energética, os Programas Nacionais de Conservação de Energia (Procel e Conpet), o Programa de Índices Mínimos de Eficiência Energética, PEE/ANEEL, entre outros. Como consequência, há vários agentes e instituições que tratam a questão, com destaque para o Ministério de Minas e Energia, a Eletrobrás, o Procel.

No setor público, são importantes a vontade e a decisão política em fazer acontecer o conjunto de iniciativas e projetos existentes, independentemente de quem estiver no governo. As iniciativas de eficiência energética não podem prescindir de mecanismos de gestão, troca de informações, articulação e coordenação. Os resultados devem ser mensurados e monitorados ao longo de tempo gerando uma base de dados confiável.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS - Como as novas tecnologias podem contribuir para aumentar a eficiência energética? 

JAMIL HADDAD - A eficiência energética pressupõe, entre outros fatores, a adoção de novas tecnologias, a adequação dos padrões de consumo, a conscientização e a mudança de hábitos dos consumidores. Por isso, são importantes a difusão de informações e a formação de recursos humanos, capazes de implementar as medidas necessárias. Além dos equipamentos e sistemas mais eficientes que surgem no mercado a cada dia, como medidores, sensores, etc., a tecnologia da informação e a gestão da Informação têm papel relevante nos processos de eficiência energética. 

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS - Como o Brasil pode avançar nesta questão? Quais as medidas que empresas, governos e até a população podem contribuir para o uso racional e eficiente da energia?

JAMIL HADDAD - O Brasil procura inserir a eficiência energética em vários planos setoriais como o Plano Decenal de Expansão de Energia 2026, o Plano Nacional de Energia 2030, e o Plano Nacional de Energia 2050. Há ainda o Plano Nacional de Eficiência Energética. A meta global é reduzir em 10% (106.623 GWh ) o consumo de energia elétrica até 2030. No Acordo de Paris, firmado em2015, na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, o Brasil se comprometeu com a redução das emissões dos gases do efeito estufa. A Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil será alcançar, em 2025, uma redução de 37% as emissões em relação aos níveis de 2005.

Para 2030, a meta do Brasil é reduzir as emissões a um nível 43% abaixo do de 2005. Para atingir essas metas, estão previstos o aumento da eficiência de equipamentos residenciais, industriais, comerciais e outros e mudanças nos hábitos de consumo e o aperfeiçoamento das políticas públicas de eficiência energética no setor elétrico. Com a fixação de metas, é cada vez mais importante estabelecer um processo de obtenção de dados e informações confiáveis e permanentes para avaliação dos progressos alcançados e do potencial de conservação de energia.

Avanços tecnológicos facilitam o uso racional de recursos nos processos de produção

As novas tecnologias e a digitalização dos processos de produção facilitam o uso racional da energia na indústria. Exemplo disso são os aplicativos que simulam em tempo real a movimentação de pessoas, materiais, energia, água e ar comprimido simultaneamente ao funciomento de máquinas e equipamentos nas fábricas. Essas reproduções virtuais verificam quais as máquinas e os equipamentos mais eficientes e os que mais consomem energia. Com isso, é possível ajustar os processos para reduzir o consumo de energia e outros insumos. “A simulação é uma tecnologia cada vez mais usada na indústria”, afirma o diretor do Instituto SENAI de Inovação em Metalmecânica, Victor Gomes.

Segundo ele, os avanços na velocidade e na capacidade de processamento de dados são fundamentais para a coleta e a análise das informações. “É possível compilar mais dados hoje do que na década de 90, de forma mais rápida e exata, e usar a inteligência artificial para auxiliar no desenho de processos fabris mais eficientes. Além da experiência do pessoal da fábrica, atualmente há algoritmos que vão aprendendo os melhores caminhos, os melhores fluxos de materiais e de energia mais eficientes”, explica Gomes. 

Além disso, informa ele, há sistemas que estão sendo projetados para coletar dados de maquinas em operação e em modo de espera (stand by). Em uma fábrica, geralmente, máquinas e sistemas não são desligados: ou estão processando materiais ou esperando o material chegar para ser processado. Os novos sistemas são capazes de programar as máquinas para desligar alguns sistemas secundários e economizar energia em modo stand by.   

É possível compilar mais dados hoje do que na década de 90, de forma mais rápida e exata, e usar a inteligência artificial para auxiliar no desenho de processos fabris mais eficientes", diz Gomes

Também há máquinas que controlam seus sistemas eletrônicos a partir de informações que recebem. Com a ajuda de dados, equipamentos ou ferramentas podem aprender – no que ficou conhecido como machine learning - a desligar subsistemas e partes que não estão sendo utilizados. Por exemplo, em uma linha de produção de motores, o sistema pode se auto programar para desligar algumas máquinas e ferramentas em alguns períodos, principalmente nos horários de pico, quando a energia custa mais caro. Com isso, o consumo médio de energia por produto fica menor e, consequentemente, o custo cai. “Com o aumento das tarifas, se a empresa não controlar os custos ela sai do mercado”, pondera Gomes.

INOVAÇÃO DISRUPTIVA - Num futuro próximo, a indústria poderá usar, em larga escala, outras inovações. Conforme Victor Gomes, há a possibilidade de substituir a usinagem tradicional pela manufatura aditiva. A usinagem é um processo industrial que corta blocos de metais para transformar em peças, componentes ou ferramentas. O corte de metais consome muita energia e gera resíduos de aparas. Na manufatura aditiva, a máquina adiciona metal em pó que é fundido por um feixe de laser. O material, fundido em um ambiente de pressão e temperatura controladas, é adicionado camada por camada até produzir a peça desejada. “Nesse processo é possível obter peças com superfícies mais complexas, mais leves e sem as sobras das aparas”, diz Gomes. 

Embora o laser consuma muita energia, Gomes pondera que, nesse caso, é preciso considerar a economia no uso do produto resultante da manufatura aditiva. “Pense em automóveis e aviões que consomem muito combustível para movimentar estruturas metálicas pesadas. Então, quanto mais leves forem as peças, os motores e as estruturas metálicas, menos energia os aviões e automóveis gastarão para rodar”, destaca Gomes. Por isso, muitas vezes, as inovações para eficiência energética focam no produto e não nos processos de produção.   

SENAI apoia indústrias que buscam a eficiência energética

A rede dos Institutos SENAI de Inovação é uma aliada das empresas que buscam a eficiência energética. Uma das 26 unidades espalhadas por todo o país é o Instituto SENAI de Inovação em Metalmecânica, localizado em São Leopoldo, na região metropolitana de Porto Alegre. Pesquisadores de lá desenvolveram um sistema de sensores de rastreamento de falhas em processos de produção. “Rastrear e evitar as falhas também ajuda na economia de energia”, diz o diretor do instituto, Victor Gomes. “Podemos, por exemplo, desenvolver sensores de rastreamento de falhas em chapas metálicas que depois serão transformadas em portas de automóveis”, informa ele. 

Os sensores identificam problemas no processo e ajudam a evitar possíveis falhas que levariam ao descarte das chapas. “A conformação de uma chapa consome muita energia. Ao descartar a chapa com defeito, há o desperdício de energia e de materiais”, explica Gomes. O instituto também desenvolve sensores capazes de reduzir o uso de tinta e primer na pintura dos automóveis. Ao controlar a adição de tinta, também é possível economizar energia. 

O Instituto SENAI de Inovação em Metalmecânica desenvolveu ainda um método chamado análise de eficiência energética digital. Por meio da simulação da fábrica, é possível mapear os processos industriais e identificar onde há mais e menos consumo de energia. Tudo começa com a identificação das máquinas que consomem mais energia e as que exigem mais materiais. Com os dados, monta-se o cenário atual e elabora-se layouts mais eficientes. Isso permite que a empresa encontre o melhor layout e trace cenários futuros de produção. Além dos dados, os algoritmos mostram o melhor cenário para aquela fábrica, os processos que agregam mais valor à produção e quais são as perspectivas de produção e economia de insumos. 

Na avaliação de Victor Gomes, a eficiência energética é uma exigência do mercado e do meio ambiente. “Cada vez mais, há mercados em que os consumidores querem saber quanto de energia o produto consumiu e quanto resíduo gerou na sua fabricação. Se quiserem permanecer no mercado, as empresas têm de dar respostas a essas questões”, afirma. Além disso, destaca ele, o custo da energia é alto e a tendência é que as legislações de proteção ambiental, como o estabelecimento de metas para emissão de gases do efeito estufa, exijam mais eficiência e racionalidade no uso de recursos naturais.

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